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O pianista de olhos de mel


Desde 7 de abril, quando a polícia o encontrou vagando à beira-mar, não disse sequer uma palavra. Usava calça e paletó escuros e de corte refinado, camisa com colarinho abotoado, sem gravata – toda a roupa encharcada, as etiquetas arrancadas. Não levava dinheiro nem qualquer documento que o identificasse, e não deixou que tocassem nas partituras envoltas em plástico transparente. Entre 20 e 30 anos, magro, 1,83m de altura, cabelos louros ralos, olhos cor de mel. Embora assustado, o olhar é triste, daquela tristeza perturbadora de santos e enfermos. Emana fragilidade, abandono e vaga ternura.Ocorrido em Sheerness, no condado britânico de Kent, o fato tem intrigado a polícia, a imprensa e médicos. Desde que soube, acompanho sua evolução, atraído pelo mistério do personagem e fascinado pelas infinitas faces com que a arte se dispõe ao homem.O silêncio pétreo levou a crer que fosse surdo-mudo ou não entendesse o inglês. Diante de médicos e interlocutores russos, poloneses, lituanos, letões... ouviu os sons e seguiu calado – entendo bem a renúncia à fala. Espalharam sua foto pelo mundo e o internaram no Hospital de Medway – onde permanece. Deram-lhe papel e lápis para que escrevesse o próprio nome. Ele desenhou, detalhadamente, um piano de cauda. Restaurou, pela arte, a relação com o mundo externo: o desenho deu à luz o instrumento musical.Na capela do hospital, diante do piano, avançou de olhos rútilos, sentou-se trêmulo e, transfigurado, tocou com segurança e desenvoltura. A apatia desapareceu e a quietude ganhou ritmos e movimentos. Inundou o templo de sonoridade. Médicos, enfermeiros e policiais ouviram deslumbrados o que identificaram como música erudita de qualidade, embora desconhecida. Compositor ou instrumentista? Naquela primeira vez, tocou por várias horas e, enfim, ele sorriu. Sem dizer uma palavra, como até hoje não disse.Não disse? E se sua fala, em vez da saturada e extenuada voz humana, for feita dos sons com que o piano vocaliza? Seria menos entendida que as metralhadoras que impõem verdades à bala, ou declarações de amor que brotam e murcham na garganta? Para quem sabe de paixão, uma sonata ao luar pode soar como hino de amor extasiado. Ele não comove quem o ouve? Por que se sentiria mais solitário do que na tagarela solidão das multidões? E sorriu ao tocar! Quantos se sentem satisfeitos consigo próprios, para fruirem o privilégio de rirem sozinhos – sem álcool, droga, a graça industrial da TV e até companhia?Em nome de deveres humanitários, querem descobrir sua nacionalidade, que língua fala, a identidade, talvez a família, a profissão e, sobretudo, seu nome. Para sua segurança e bem-estar, tramam confiscar-lhe a suprema liberdade de prescindir desses fios com que se tecem as camisas-de-força.Qual é mesmo a nacionalidade de um homem do mundo, num mundo globalizado? Se não lhe notam, reconhecem ou distinguem, espontaneamente, uma nacionalidade, o que será essa nacionalidade, se não é inerente à condição do ser? Onde quer que nasça, um homem é, antes de tudo, um homem. E a identidade, o que seria, senão algo que repousa nele, silenciosa e discreta, como se dissesse o que disse o Senhor: “Sou o que sou� – e todos se deram por satisfeitos! Sua identidade é a humana – mistério que nos identifica e nos distingue. E a sua língua – a música – não há mais universal. Sua família, qual? Se ninguém o procurou, reclamou, ou fez qualquer sinal de amor? Sua família é a tribo dos artistas incompreendidos, que, na solidão das trincheiras, recriam o mundo e os homens para encantar o mundo dos homens. Cada um é feliz como deseja e pode; desvanecer-se em renúncias e sons é a forma que lhe foi concedida para casar-se com a felicidade – o que mais se pode aspirar? O seu nome...ora, nomes! O que significa mesmo um nome, sem face nem sangue, imposto por outros, antes que o nominado mostre a cara? Dele só emanam sons e olhar: que seja O Pianista dos Olhos de Mel. O resto é música e mistério.Posted by Hello