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Nem tudo começa com um beijo

" A Cave" eram os buracos do esgoto que serviam de tecto a Fio Maravilha.
Nuvem Maria vivia no "Sótão", num apartamento com vista para a solidão. O seu mundo era triste, tão triste que até doía. Então compreendeu que sem Inferno não havia Paraíso e procurou o seu refúgio secreto.
Quando o peso da tristeza ameaçava esmagar os seus sonhos, deitava-se sobre a relva ou sentava-se num banco de madeira a namorar os amores-perfeitos com o olhar. Foi assim, de costas, que Fio Maravilha a encontrou pele primeira vez. Mal viu a farta cabeleira dourada, desfez a dúvida que lhe atormentava o pensamento - ela não era fruto da combustão da água que queima, mas uma menina de carne e osso. A partir daí passou a conhecer a cor, as ondulações, as madeixas coloridas, as pontas e os fios mais rebeldes da sua longa cabeleira e a sentir a mesma tremedeira, o nervoso miudinho, o coração a querer saltar pela boca, a pele de galinha e as reviravoltas do estômago. Naquele tempo Fio Maravilha quase morreu de amor.
Depois vieram as juras de amor e o beijo. Prolongado, sentido e muito aguardado. Sabia a pastilha elástica. Mas tudo isso foi antes do terramoto. Depois dele, Fio palmilhou a cidade caminhando por entre os destroços e desaguou no mar. Era a busca dela que o mantinha vivo. Foi então que ficou cego pelo clarão daqueles cabelos louros. Nuvem soluçava baixinho.
- Pensei que nunca mais te veria - diz ela
- Sabia que te ía encontrar - responde ele, antes de lhe dar um beijo desesperado.
Depois instalaram-se num veleiro abandonado. Foi Nuvem Maria quem levantou as amarras.
- Para onde vamos? - perguntou Fio Maravilha, só por perguntar.
- Para onde o vento nos levar......
E deixaram-se embalar pelo encanto do vento norte.